Pense no dono de uma oficina de motos em Feira de Santana. Ele faz a arte do cartão no celular, num aplicativo de design, e manda para a gráfica. Voltam mil cartões com o "Ltda" do nome cortado pela metade e o telefone a dois milímetros da borda. A arte estava certa na tela. O tamanho estava errado no arquivo.
É o problema mais comum de quem faz o próprio cartão, e ele não tem nada a ver com bom gosto. Tem a ver com três medidas que a gráfica espera e que o aplicativo não avisa: o tamanho do cartão, a sangria e a margem de segurança. Acertando as três, qualquer arte simples sai bem impressa.
A medida padrão no Brasil: 9 × 5 cm
O cartão de visita mais comum no Brasil tem 9 cm de largura por 5 cm de altura (90 × 50 mm). É o tamanho que as gráficas oferecem como padrão, que aparece em edital de compra pública e que cabe nos porta-cartões e nas carteiras vendidos aqui.
Você vai encontrar outras medidas, principalmente em modelos prontos baixados da internet:
| Onde é padrão | Medida |
|---|---|
| Brasil | 9 × 5 cm |
| Europa | 8,5 × 5,5 cm |
| Estados Unidos | 8,9 × 5,1 cm (3,5 × 2 polegadas) |
A diferença é de meio centímetro, e é exatamente ela que corta o "Ltda". Um modelo americano mandado para uma gráfica que imprime 9 × 5 é esticado ou cortado para caber, e quem decide onde corta é a máquina.
Por isso a primeira coisa a fazer não é a arte: é perguntar à gráfica qual medida ela usa e pedir o gabarito, o arquivo modelo com as linhas de corte marcadas. Quase toda gráfica tem um, de graça.
Cartão quadrado, vertical ou de cantos arredondados também existe. O vertical, na mesma medida virada, funciona bem e chama atenção. O quadrado e os formatos especiais eu só faria com um motivo forte: eles não cabem no porta-cartão de quem recebe, e o cartão que não cabe é o primeiro a ir para o lixo na arrumação da gaveta.
O arquivo: sangria e margem de segurança
A gráfica não imprime um cartão por vez. Imprime vários numa folha grande e depois corta. O corte pode desviar cerca de um milímetro para qualquer lado, e o arquivo precisa aguentar esse desvio pelos dois lados da linha.
Sangria é o que fica para fora. Se o fundo do cartão é colorido, a cor precisa passar 3 mm além da linha de corte em cada lado. Assim, se o corte desviar, sai mais fundo, e não um filete branco na borda. Na prática, o arquivo de um cartão de 9 × 5 cm com sangria tem 9,6 × 5,6 cm.
Margem de segurança é o que fica para dentro. Nome, telefone, logotipo e QR Code precisam ficar pelo menos 3 a 5 mm afastados da linha de corte. O que estiver mais perto que isso pode sair cortado, como o "Ltda" da oficina.
Juntando as duas, o desenho tem três retângulos: o externo (9,6 × 5,6 cm) até onde vai o fundo, o do meio (9 × 5 cm) onde a guilhotina passa, e o interno, com uns 4 mm de folga, onde fica tudo que precisa ser lido. O gabarito da gráfica já vem com os três desenhados.
Mais três cuidados de arquivo:
- Mande em PDF, com as fontes incorporadas ou convertidas em curva. Arquivo de imagem de aplicativo de celular costuma sair em baixa resolução; peça a exportação "para impressão".
- A cor da tela não é a do papel. O celular mostra cor com luz; a gráfica imprime com tinta, em CMYK. O azul vivo da tela costuma sair mais escuro no papel. Se a cor da marca importa, peça uma prova impressa.
- Fonte de 7 pontos é o limite para o texto pequeno. Abaixo disso o telefone vira um borrão para quem passou dos 50 anos, que é muitas vezes quem contrata uma oficina.
O papel, e o que faz o preço mudar
O papel mais usado é o couché 300 g, firme o bastante para não dobrar na carteira. Abaixo de 250 g o cartão fica com cara de panfleto. Acima de 350 g fica bonito e encarece.
O acabamento que eu recomendaria pensar com calma é a laminação. A brilhante deixa a cor mais viva, mas não aceita caneta. A fosca fica mais sóbria e aceita. Parece detalhe até o dia em que você precisa anotar no verso o horário marcado, o valor do orçamento ou o seu celular novo. O verso do cartão da ConectaPages é fosco e tem duas linhas em branco justamente para isso: quem entrega escreve o próprio nome e o número.
As buscas por "cartão de visita barato" e "preço do cartão de visita" crescem todo ano. Não vou cravar valor em reais, porque ele muda muito de cidade para cidade e de gráfica para gráfica. O que faz o preço subir ou cair é sempre a mesma lista:
- Quantidade. O milheiro (mil unidades) sai bem mais barato por cartão do que quinhentos, e quinhentos mais barato que cem. A conta engana: o preço por cartão cai, mas o total sobe.
- Frente e verso colorido (4×4) custa mais que só a frente colorida (4×0).
- Acabamentos: laminação, verniz localizado (o brilho só em cima do logotipo), cantos arredondados, papel especial. Cada um soma.
- Prazo. Pedido para amanhã custa mais que pedido para a semana que vem.
E aqui vai a discordância. A gráfica sempre vai sugerir o milheiro, porque o cartão unitário fica barato. Eu só faria mil cartões se tivesse certeza de que nada impresso neles vai mudar nos próximos dois anos. O telefone muda, o endereço muda, o Instagram é trocado. Quinhentos cartões certos valem mais que mil com um número velho, que você vai jogar fora pela metade.
O que cabe em 9 × 5 cm
Com a margem de segurança, sobram uns 8 × 4 cm úteis de cada lado. Cabe menos do que parece.
Na frente: o nome do negócio, o que você faz em poucas palavras ("conserto e revisão de motos") e o logotipo, se tiver. No verso: o seu nome, o WhatsApp, o bairro e um QR Code. Escrevi sobre o que entra e o que deixar de fora em o que colocar no cartão de visita; aqui o ponto é o espaço.
O QR Code merece um cuidado próprio. Ele precisa de uma borda branca em volta para a câmera achar onde começa, e de contraste: código escuro em fundo claro. Antes de aprovar a prova, aponte a câmera de outro celular, a um braço de distância. Se demorar para ler, ele está pequeno. Os outros cuidados, e como criar o link que vai dentro dele, estão em link e QR Code do WhatsApp.
E o cartão de visita digital?
"Como fazer um cartão de visita digital" é uma das buscas que mais crescem sobre o assunto. O nome engana: não é um arquivo de imagem do cartão para mandar no WhatsApp. Uma foto do cartão no celular de outra pessoa se perde no meio das fotos da galeria, e ninguém disca um número olhando uma imagem.
O que funciona como cartão digital é uma página no celular com três coisas: quem você é, um botão que abre o WhatsApp e um botão de salvar contato, que grava o seu nome e número na agenda de quem recebeu. Esse último é o que a imagem não faz, e é ele que garante que daqui a seis meses, quando a moto dessa pessoa fizer barulho, ela ache "Oficina do fulano" ao digitar "oficina" na agenda.
Ele não substitui o de papel. O papel é o que você entrega na mão, no balcão, junto com o troco. O digital é para onde o papel leva: o QR Code impresso abre a página, e a página faz o que os 9 × 5 cm não fazem.
O cartão pequeno que leva a uma página grande
O limite do cartão de visita é físico: 9 × 5 cm não comportam a lista de serviços, os preços, as fotos das motos que já passaram pela oficina, o horário de sábado. O QR Code é a forma de levar a pessoa para onde cabe.
Para onde ele leva é a decisão importante. Se o QR leva só ao WhatsApp, a conversa começa do zero: "faz revisão de Biz?", "quanto é?", "abre sábado?". Se leva a uma página com tudo isso respondido, a pessoa chega sabendo o que quer. É o mesmo raciocínio de o que aparece quando procuram sua empresa no Google: quem recebeu um cartão vai pesquisar antes de chamar.
E o QR impresso tem o mesmo problema do milheiro: se o destino muda, o cartão morre. Por isso, no cartão, eu uso um QR que deixa trocar o destino depois de impresso. Aviso que é algo que eu ofereço: o QR Code grátis da ConectaPages, que hoje leva ao WhatsApp e amanhã à sua página do negócio, sem reimprimir nada. Foi o que fizemos no nosso próprio cartão.
Antes de mandar o seu para a gráfica: peça o gabarito, deixe 4 mm de folga em volta do texto, escolha a laminação fosca se for escrever no verso e encomende só a quantidade que você tem certeza de usar antes de alguma coisa mudar.