O que 16 meses de Google mostram sobre negócio local

Eu faço páginas para pequenos negócios, então leia isto sabendo de que lado eu estou. Mas tem uma coisa que quase ninguém que vende site mostra, e que eu tenho: o que acontece no Google depois que a página vai ao ar.

O Google oferece uma ferramenta gratuita, o Search Console, que mostra para quais buscas um site apareceu, em que posição e quantas pessoas clicaram. Juntei 16 meses dela, de julho de 2025 a outubro de 2026, das páginas de 25 negócios que passaram por aqui: guincho, afiador, cutelaria, jardineiro, piscineiro, salão, nutricionista, assistência técnica, energia solar, limpeza de sofá. Cidades grandes e pequenas, do Rio Grande do Sul a São Paulo.

Vinte e cinco negócios não são uma pesquisa de instituto. Mas são dados de verdade, de gente que atende na própria cidade, e alguns padrões aparecem com tanta clareza que vale contar.

Quem procura um serviço escreve a cidade junto

O caso mais claro é o do Guto Guincho, em Artur Nogueira, no interior de São Paulo. Nos 16 meses, as buscas que mais levaram gente à página dele foram estas:

  • "guincho artur nogueira": a página aparece em média na 4ª posição;
  • "guincho em artur nogueira": 3ª posição;
  • "guto guincho artur nogueira": 1ª posição, e uma em cada cinco pessoas que fizeram essa busca clicou.

Ninguém que está com o carro parado digita só "guincho". Digita "guincho" e o nome da cidade, porque quer alguém que chegue rápido. A página do Guto fala de guincho em Artur Nogueira, com essas palavras, logo no começo. É por isso que ela aparece.

O que tiro disso para qualquer negócio: o serviço e a cidade precisam estar escritos na página, do jeito que o cliente fala. "Guincho 24 horas em Artur Nogueira" funciona; "soluções em mobilidade veicular" não aparece para ninguém. Escrevi com calma sobre isso em o que escrever na página para o cliente chamar.

Sete em cada dez cliques vêm do celular

No conjunto das páginas e dos artigos, 71% dos cliques vieram de celular. E a posição média no celular foi bem melhor: 6,7, contra 15,8 no computador. Faz sentido: quem procura serviço perto de casa está na rua, no carro, no intervalo do trabalho.

Na prática, isso quer dizer que a sua página é, antes de tudo, uma tela de celular. Se o botão do WhatsApp está escondido no rodapé, se a foto demora a carregar no 4G, se o telefone está numa imagem que não dá para tocar, você perde justamente a maioria. Abra a sua página no seu celular, com o Wi-Fi desligado, e tente chamar você mesmo. Se der trabalho, dá trabalho para o cliente também.

Quando procuram o seu nome, você precisa ser o primeiro

Uma parte das buscas é pelo nome do negócio: gente que recebeu uma indicação, viu o carro na rua ou já foi cliente e perdeu o número. Nessas, a página costuma ficar no topo. "O Piscineiro", de Florianópolis, aparece em média na posição 2,8; "Van Cleaner", na 3,3; "Central Consertos", na 3,4.

O nome sozinho, porém, nem sempre basta. Existe outro Guto Guincho, em Blumenau, e quem digita só "guto guincho" vê a página de Artur Nogueira na posição 7, misturada com o xará. Quando a pessoa escreve "guto guincho artur nogueira", ela sobe para a 1ª. A mesma coisa com nomes de gente: "bruna sena" teve 710 buscas, e a página da Bruna aparece por volta da 9ª posição, porque há muitas Brunas Senas no Google.

Duas lições práticas. A primeira: o nome do negócio e a cidade precisam estar juntos na página, no título, para o Google entender que aquele Guto é o de Artur Nogueira. A segunda vale para quem ainda vai escolher o nome: um nome que ninguém mais usa é muito mais fácil de achar. Falei disso em nome para empresa: como escolher.

E vale lembrar o que acontece quando a indicação chega e não existe página nenhuma: a pessoa procura o nome, acha um perfil sem telefone ou o negócio de outro, e desiste. Quem indica faz metade do trabalho; a outra metade é ser encontrado.

Aparecer em 2º lugar não é o mesmo que receber cliente

Este foi o dado que mais me surpreendeu. A página de um afiador do interior do Rio Grande do Sul apareceu 1.031 vezes para a busca "afiador de facas", em média na posição 2,7. Quase no topo. E ninguém clicou. O mesmo com "amolador de facas" (posição 2,5) e "afiador de tesouras" (posição 2,0): nenhum clique.

Agora compare com buscas que falam do serviço. "Afiação de facas", na posição 3,2, recebeu clique. "Afiar tesoura" e "afiação de alicates", na posição 4,4, também. A posição era parecida; o que mudou foi a palavra.

"Afiador de facas" é também o nome de um objeto: a pedra, o aparelho que se compra na loja. Muita gente que digita isso quer comprar um, vê a página de quem presta o serviço e passa direto. Os dados não dizem quantas dessas pessoas queriam o produto, mas o contraste é forte demais para ser acaso: quando a busca nomeia o serviço, alguém clica; quando nomeia algo que também é produto, ninguém.

Muita gente se impressiona com "estou na primeira página do Google". Eu desconfio desse número sozinho. O que importa é aparecer para a busca de quem quer o seu serviço. Por isso, escreva o serviço como serviço: "afiação de facas e tesouras", "conserto de geladeira", "limpeza de piscina", de preferência com a cidade. E dê a quem chega o que um anúncio de produto não dá: onde você atende, quanto tempo leva, como chamar. A ficha no Google ajuda a mostrar isso no mapa, e expliquei como montar em o que é o Google Meu Negócio.

No bairro de cidade grande, a página trabalha em dupla

Em São Paulo o jogo é outro. A página de um salão no Ipiranga aparece para "salão de beleza ipiranga" por volta da 10ª posição, o fim da primeira página, e ali o clique é raro. Um chaveiro do mesmo bairro apareceu 359 vezes para "chaveiro ipiranga", na posição 10,8, sem nenhum clique.

Num bairro com dezenas de salões e chaveiros, quem fica no topo é quem tem a ficha do Google cheia de avaliações, fotos e horário certo. A página sozinha não ganha essa disputa.

Mas olhe a outra metade do mesmo dado: quando alguém procura o nome do salão, a página aparece em 1º lugar, em média na posição 1,3. Ou seja, a cliente que ouviu falar do salão com uma amiga, procurou o nome e achou, com fotos, serviços e o botão de chamar. Isso a ficha do Google também mostra, mas não com o mesmo espaço para explicar o serviço.

E as duas se ajudam. O próprio Google explica, na ajuda do Perfil da Empresa, que o mapa escolhe quem mostrar pela relevância, pela distância e pelo quanto o negócio é conhecido, e que essa última parte vem também do que existe sobre ele pela internet, como links, artigos e diretórios, além da quantidade e da nota das avaliações. Ou seja: a ficha, a página e as redes sociais contando a mesma história, com o mesmo telefone, o mesmo endereço e o horário em dia, somam. Informação desencontrada entre elas confunde o cliente e não ajuda ninguém.

Em cidade grande, a página e a ficha fazem trabalhos diferentes. A ficha disputa quem ainda não te conhece; a página segura quem já ouviu falar e foi te procurar. Uma sem a outra deixa cliente pelo caminho, e é sobre isso o artigo aparece no Maps mas não tem para onde mandar o cliente.

A maior parte das buscas você nunca vai ver

Mais um dado que quase ninguém comenta: dos cliques desses 16 meses, só 12% vieram de buscas que o Google mostra quais foram. O resto chegou por buscas variadas demais, feitas por poucas pessoas cada uma, que a ferramenta esconde por privacidade.

Isso derruba uma ideia que muita gente vende: a de escolher "a palavra-chave certa" e otimizar a página para ela. As pessoas procuram de mil jeitos. "Afiar alicate de unha", "onde amolar alicate", "afiador de alicate perto de mim", "afiação de alicates": tudo isso apareceu nos dados de um mesmo negócio.

O que funciona é a página falar do serviço do jeito que os clientes falam, com detalhes de verdade: o que você faz, onde atende, quanto tempo leva, as perguntas que mais ouve. Uma página assim aparece para variações que você nunca imaginou. Uma página de três frases genéricas não aparece para nenhuma.

O que eu faria com isso, se fosse você

Juntando tudo:

  1. Escreva o serviço e a cidade na página, com as palavras do cliente.
  2. Teste a página no celular, sem Wi-Fi, e chame você mesmo pelo botão.
  3. Escreva o serviço como serviço: posição em palavra que também é produto não traz cliente.
  4. Em cidade grande, cuide da ficha do Google e das avaliações junto com a página.
  5. Esqueça a palavra-chave mágica e escreva sobre o seu trabalho com detalhe.

O passo a passo para aparecer na busca da sua cidade está em como aparecer no Google na busca da sua cidade.

Vou repetir esta conta a cada poucos meses, com os dados novos. Se quiser uma página como a do Guto para o seu negócio, é o que a gente faz na página para o seu negócio.

Cristian F. Ritter

Cristian F. Ritter

Cristian Ritter é Engenheiro e Mestrando em Ciências da Computação. Apaixonado por tecnologia e com uma carreira de mais de 20 anos na área, trabalha com sites profissionais para negócios locais e cardápios digitais na ConectaPages desde a sua fundação em 2023.