Pense num barbeiro em Natal que passa um fim de semana escolhendo o nome da barbearia. Fica com "Navalha de Ouro", gosta do som, manda fazer a fachada em letra dourada, o avental bordado e quinhentos cartões. Na segunda-feira vai criar o Instagram: o @ já é de uma barbearia de Goiânia, com quarenta mil seguidores. Procura no Google e aparecem três "Navalha de Ouro" antes dele, uma delas a dez minutos de distância, no mesmo bairro.
O nome não está errado. Está ocupado, e ele descobre depois de pagar a placa.
Escolher nome para um negócio que atende na própria cidade é diferente de batizar uma marca nacional, e as conferências que teriam salvo a fachada dele levam meia hora.
Um nome para ser falado, digitado e achado
Quem procura "nome para empresa" quase sempre está atrás de ideias, de uma lista ou de um gerador. Eles ajudam a destravar, mas sozinhos não respondem a pergunta que importa: esse nome vai trazer cliente?
Para um negócio local, o nome faz três trabalhos, e vale testar cada candidato contra os três.
Ser falado. A maior parte dos clientes de uma barbearia chega por indicação: alguém pergunta "onde você corta?" e o outro responde de cabeça. Se o nome precisa ser soletrado ("é Barber com dois R, sem acento, tudo junto"), a indicação se perde no caminho. Diga o nome em voz alta para três pessoas e peça para elas escreverem. Se saírem três grafias diferentes, a indicação também vai sair errada no Google.
Ser digitado. Palavra estrangeira, letra dobrada e trocadilho com grafia inventada ficam bonitos na placa e dão errado na busca. "Barbearia do Kaique" com K funciona se o cliente sabe que é com K. Cada letra que ele pode errar é um cliente que digita o nome e encontra outra coisa.
Dizer o que você faz, ou pelo menos não esconder. "Navalha de Ouro" sozinho pode ser loja de facas. "Barbearia Navalha de Ouro" não deixa dúvida. Não precisa estar no nome registrado, mas precisa estar na placa, no perfil e na ficha do Google, junto do nome.
Com o seu nome ou sem? "Barbearia do Kaique" tem uma vantagem que nome inventado nenhum tem: o cliente sabe quem vai cortar o cabelo dele, e indicação de barbearia é indicação de barbeiro. Em compensação, o nome vai junto com você. Se um dia a barbearia tiver três cadeiras e outros barbeiros, o cliente vai querer o Kaique, e se você vender o ponto, quem compra herda um nome que não é dele. Para quem trabalha sozinho e pretende continuar assim, o próprio nome é uma ótima escolha. Para quem pensa em crescer, um nome do negócio, com o seu nome dito na conversa e escrito no cartão.
E uma discordância: muita gente põe o bairro ou a cidade no nome achando que ajuda a aparecer no Google. Ajuda pouco, e prende. O Google sabe onde você está pelo endereço da ficha e pelo que a sua página diz; ele não precisa do bairro no nome. E o dia em que a barbearia mudar para outro bairro, o nome vira uma explicação. Bairro no nome eu só usaria se ele for, de fato, parte de como as pessoas já chamam o lugar.
Conferência 1: o INPI
Marca registrada é o que dá a alguém o direito de usar aquele nome com exclusividade em todo o país, no ramo dela. Está na lei de propriedade industrial (Lei 9.279/1996, art. 129). Se alguém já registrou "Navalha de Ouro" para serviço de barbearia, essa pessoa pode exigir que você pare de usar, mesmo que você tenha aberto primeiro na sua cidade e nunca tenha ouvido falar dela.
A consulta é grátis, no site do INPI, na busca de marcas. Três cuidados para ela valer:
- Procure o nome e as variações: com e sem "Barbearia", no singular e no plural, com a grafia que você escolheu e com a que as pessoas vão escrever.
- Olhe a classe. As marcas são registradas por ramo, em 45 classes; as de serviço vão da 35 à
- Uma "Navalha de Ouro" registrada para cutelaria não impede a sua barbearia, mas uma registrada em serviços de beleza impede.
- Marca parecida também conta. O INPI barra nome que confunda o consumidor, não só o idêntico.
Achou o nome livre? Vale considerar registrar. Não vou reproduzir taxas e prazos aqui porque eles mudam; o próprio site do INPI tem a tabela atualizada e o passo a passo. Para um negócio de bairro, o registro não é urgente no primeiro dia, mas a consulta é: ela custa meia hora e evita perder a fachada.
Um equívoco comum: abrir o CNPJ não protege o nome. O nome registrado na Junta Comercial é exclusivo só dentro do estado (Código Civil, art. 1.166), e o nome fantasia do MEI nem isso. Marca é outra coisa, e é no INPI.
Conferência 2: o endereço na internet
Mesmo que você não pense em ter site agora, veja se o domínio está livre. O .com.br se consulta
no Registro.br, o órgão que cuida dos endereços brasileiros, e para registrar basta um CPF ou CNPJ.
Se "navalhadeouro.com.br" já estiver tomado, isso não impede o nome, mas é um sinal: existe outro negócio com esse nome forte o bastante para ter registrado. Vale descobrir quem é antes de seguir.
E se estiver livre, considere registrar já. Domínio é barato por ano, e o dia em que você quiser um site com o seu nome, ele pode não estar mais livre. Expliquei as formas de pôr um site no ar, com o custo de cada uma, em como fazer um site para o seu negócio.
Conferência 3: o @ do Instagram
Foi onde o barbeiro de Natal descobriu o problema, e é a conferência mais rápida. Procure o nome exato no Instagram e as variações com ponto, com sublinhado e com "barbearia" na frente.
Se o @ exato estiver ocupado, dá para usar uma variação ("barbearianavalhadeouro.natal"), mas quanto mais longe do nome da placa, mais gente segue a conta errada. E se a conta que ocupa o nome é do mesmo ramo, o problema não é o @, é o nome.
Uma coisa que pouca gente lembra nessa hora: o Instagram não é seu, é uma conta que a plataforma pode suspender. Vale escolher já pensando em como o cliente acha você se o perfil cair, como eu contei em Instagram do negócio hackeado ou suspenso.
Conferência 4: o Google da sua cidade
Digite no Google o nome que você escolheu e a sua cidade, e depois abra o Maps e procure só o nome. É aqui que aparecem as três "Navalha de Ouro" do barbeiro.
Um nome igual a outro negócio do mesmo ramo na mesma cidade é o pior caso. O cliente indicado procura, cai na ficha do outro, liga para o outro, e você nunca fica sabendo. As avaliações se misturam: quem foi mal atendido lá avalia a ficha errada.
Nome igual em outra cidade, ou em outro ramo, atrapalha menos, mas atrapalha: o Google mostra primeiro quem tem mais tempo e mais avaliações, e o seu negócio novo começa atrás.
Se passou nas quatro, o nome está livre de verdade. Aí sim: crie a ficha no Google Meu Negócio com o nome exatamente como está na placa, sem acrescentar palavra-chave. O Google pede o nome real do negócio e pode suspender a ficha que acrescenta "melhor barbearia de Natal" ao nome.
Depois da placa
Com o nome escolhido e conferido, ele precisa aparecer igual em todo lugar: placa, cartão, perfil, ficha do Google, WhatsApp Business. Uma vírgula diferente não muda nada para o cliente, mas um "Barbearia Navalha de Ouro" num lugar e "Navalha Barber" no outro faz o Google e as pessoas acharem que são dois negócios.
No cartão de visita, o nome vai na frente, grande, com o que você faz logo embaixo; escrevi o resto do que entra nele em o que colocar no cartão de visita.
E quando alguém digitar esse nome no Google, o que vai aparecer? Se for só a ficha, a pessoa vê endereço e estrelas. Se houver uma página com os serviços, os preços e o botão do WhatsApp, ela chega decidida. Aviso que eu vendo esse tipo de página, a página do negócio, e que ela funciona melhor com um nome que passou nas quatro conferências acima.
Para fazer hoje, antes de qualquer gasto: escreva os três nomes favoritos e passe cada um pelo INPI, pelo Registro.br, pelo Instagram e pelo Google da sua cidade. O que sobrar é o seu nome.