Pense num serralheiro em Uberlândia. Vai até a casa do cliente numa terça à tarde, mede o vão da garagem, conversa sobre o portão basculante, mostra no celular dois portões que fez no mesmo bairro. Volta para a oficina, faz as contas e, à noite, manda no WhatsApp:
Fica R$ 4.200.
O cliente visualiza e não responde. Na sexta, o serralheiro descobre pelo vizinho que ele fechou com outro, por R$ 4.500.
Não foi o preço. O outro mandou um orçamento que dizia o que estava incluído: a chapa, a pintura, a instalação, o prazo, a garantia. O cliente comparou uma mensagem de quatro palavras com uma proposta, e pagou mais pela que explicava. Ninguém gosta de fechar R$ 4 mil no escuro.
O orçamento também vende
Muita gente trata o orçamento como uma conta: o número que sai depois de somar material e mão de obra. Para o cliente, ele é a primeira coisa por escrito que recebe de você. É ali que ele decide se você é organizado, se vai cumprir o prazo e se vai aparecer cobrando coisa que não estava combinada.
Um bom orçamento responde, antes de o cliente perguntar, as três dúvidas que fazem ele hesitar: o que exatamente está incluído, quando fica pronto e o que acontece se der problema. Responda as três e o seu preço passa a ser comparado com o que você entrega, não com o número mais baixo que ele recebeu.
O que a lei pede num orçamento
O Código de Defesa do Consumidor tem um artigo só sobre isso, o 40. Ele diz que quem presta serviço deve entregar um orçamento prévio com:
- o valor da mão de obra;
- os materiais e equipamentos que serão usados;
- as condições de pagamento;
- a data de início e a de término do serviço.
E acrescenta duas regras que pouca gente conhece. O orçamento vale por 10 dias, se você não escrever outro prazo. E, depois que o cliente aprova, ele obriga os dois lados: você não pode cobrar mais, e ele não pode pedir um desconto no fim alegando que mudou de ideia.
A primeira regra é a que mais pega o serralheiro, porque o aço muda de preço. Pela lei, o cliente que aparece dois meses depois com o orçamento antigo não tem direito àquele valor. Mas ele não sabe disso, e explicar a lei para um cliente que já está chateado é o começo de uma briga. Escreva a validade com a data, "válido até 2 de novembro", e a conversa nem começa.
O modelo, para copiar
Este é o modelo que eu usaria, em texto simples, para mandar direto no WhatsApp. Troque o que está entre colchetes e apague o que não se aplica ao seu serviço.
Orçamento nº [12] — [Serralheria do Paulo] [Paulo Henrique Souza] · MEI [CNPJ] · [(34) 9xxxx-xxxx] Data: [18/10/2026] · Válido até [02/11/2026]
Cliente: [Sr. Rogério] · [Rua tal, 123, bairro Santa Mônica]
Serviço: [portão basculante de garagem, 3,0 m x 2,4 m, em chapa lambril, com pintura eletrostática na cor grafite e instalação no local]
Inclui: [estrutura, chapa, contrapesos, fechadura, pintura, instalação e retirada do portão antigo] Não inclui: [motor automático, obra de alvenaria no vão]
Valores Material: [R$ 2.700] Mão de obra e instalação: [R$ 1.500] Total: [R$ 4.200]
Pagamento: [50% na aprovação, para a compra do material, e 50% na instalação, no Pix] Prazo: [início em até 5 dias úteis após a aprovação; instalação em até 15 dias úteis] Garantia: [90 dias para o serviço; a pintura, conforme o fabricante]
Para aprovar, é só responder "aprovado" nesta mensagem.
Com as linhas de "inclui" e "não inclui", acaba a briga mais comum no fim do serviço ("achei que o motor estava no preço"). E o "responder aprovado" transforma a conversa do WhatsApp no seu contrato. Ninguém precisa assinar papel para um portão.
Algumas linhas pedem cuidado
Material e mão de obra separados. A lei pede, e o cliente entende melhor. Quando ele acha caro, quase sempre está olhando para a mão de obra. Com os dois separados, ele vê que boa parte do valor é aço e tinta, e não a sua margem.
O sinal. Em serviço com material comprado sob medida, pedir uma parte na aprovação é normal, e eu acho que deve ser regra. Portão cortado na medida da garagem do cliente não serve para mais ninguém. Se ele desistir depois de você comprar a chapa, o prejuízo é seu.
A garantia. O Código de Defesa do Consumidor dá ao cliente 90 dias para reclamar de defeito em serviço durável, como instalação, reforma e fabricação. Isso vale mesmo que você não escreva nada. Escrever no orçamento não aumenta a sua obrigação. Mostra que você conhece a regra e que não vai fugir dela, e isso pesa na escolha.
O prazo. Prometa o que você cumpre com folga. O cliente perdoa o preço alto antes de perdoar o portão que ficou para "semana que vem" três vezes.
O número do orçamento. Parece burocracia e é o que salva você quando o cliente volta seis meses depois dizendo "aquele preço que você me passou". Numere em sequência e guarde: com o número, você acha a conversa em dez segundos.
E a visita para medir, cobra ou não?
Depende de quanto ela custa para você. Uma visita do outro lado da cidade, com combustível e uma tarde parada, não é de graça só porque ninguém paga por ela.
O que eu faria: visita grátis dentro do bairro ou da região onde você mais trabalha, e uma taxa de visita fora dela, descontada do serviço se o cliente fechar. Escrito assim, no primeiro contato: "a visita para medir custa R$ 80 e esse valor sai do total se você fechar comigo." Quem está só colhendo preço desiste ali, o que poupa a sua tarde. Quem quer o serviço não se incomoda, porque, no fim, não paga a mais.
O que não dá é cobrar a visita sem ter avisado antes. Aí não é taxa, é surpresa, e a surpresa sempre aparece na avaliação do Google.
WhatsApp ou PDF?
Para a maioria dos serviços de bairro, o texto no WhatsApp basta, e é até melhor. O cliente lê na hora, no celular, sem baixar nada, e responde ali mesmo.
O PDF vale quando o orçamento vai circular. Condomínio, que leva para a reunião do síndico. Empresa, que encaminha para o financeiro. Obra maior, em que o cliente vai comparar três propostas na mesa. Nesses casos, escreva o mesmo modelo num documento do Google ou no Word, coloque o seu nome no topo e salve como PDF. Mande o PDF e, na mesma conversa, uma linha com o total e a validade. Muita gente não abre anexo.
Um atalho para quem faz orçamento toda semana: salve o modelo como resposta rápida no WhatsApp Business. Você digita "/orcamento", o texto aparece pronto, e você só troca os colchetes. Como criar as respostas rápidas está em mensagem automática no WhatsApp: modelos e como configurar.
Junte uma foto de um serviço parecido
O serralheiro do começo tinha mostrado, na visita, dois portões que fez no bairro. Isso não estava no orçamento, e foi o orçamento que o cliente reviu à noite, na hora de decidir.
Mande junto uma ou duas fotos de um trabalho parecido com o que você está orçando, de preferência o antes e depois. Elas fazem o que o texto não faz: mostram que o "portão basculante em lambril" do orçamento é aquele, bem acabado, instalado numa garagem de verdade. Quais fotos tirar, e como, está em fotos do serviço com celular.
Depois de mandar
Se o cliente não responder em dois ou três dias, mande uma linha, sem pressão:
Oi, seu Rogério! Conseguiu ver o orçamento do portão? Se quiser ajustar alguma coisa, como tirar a pintura ou mudar a chapa, eu refaço.
Oferecer para ajustar abre a conversa que o cliente estava com vergonha de puxar, que quase sempre é o preço. É melhor saber disso do que descobrir pelo vizinho.
E se o cliente costuma chegar perguntando "quanto custa um portão?" sem nenhum detalhe, vale ter uma faixa de preço escrita antes, na sua página, para ele chegar já sabendo a ordem de grandeza. O que escrever ali está em o que escrever na página para o cliente chamar no WhatsApp.
Se você ainda não tem essa página, veja como funciona em sites profissionais.